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Conheça a história da menina de 12 anos que será adotada pela própria mãe em Goiás

Órfã e agredida na periferia de Luziânia, adolescente reencontrou em 2017 a mãe biológica que se prepara para adotá-la oficialmente

Malu Longo

Em 2015, durante uma visita à Casa de Passagem Proteger é Possível, em Luziânia, a titular local do Juizado da Infância e Juventude, Célia Regina Lara, ficou impressionada com aquela menina de cabelos cacheados que segurou fortemente em seu braço e perguntou: “Quando vou sair daqui?”. Ainda sem conhecer o histórico da garotinha, a juíza respondeu com objetividade: “Primeiro, preciso saber para onde, depois vou saber quando”. Aquele encontro selaria a formação de uma grande rede de proteção que culminaria num resultado surpreendente.
Tudo começou no dia 16 de janeiro de 2005 quando Letícia* nasceu na baiana Jaguaquara. A mãe, Maria*, desempregada, com duas filhas pequenas de 10 e 4 anos, vivia de favor na casa de uma amiga também sem emprego e com duas crianças para cuidar. Diante da situação de penúria, a mulher não viu outra opção a não ser anunciar a recém-nascida para doação numa rádio da cidade.
Aos 4 dias de vida, Letícia foi entregue ao casal Paulo e Edna*, sem filhos. Até 5 anos, Letícia manteve contatos eventuais com a mãe biológica, mas depois veio com os pais adotivos para Luziânia, no Entorno de Brasília. Em janeiro de 2013, logo depois de completar 8 anos, Letícia começou a trilhar um caminho de martírio. A morte de Edna e o segundo casamento de Paulo revelaram a ela um mundo de sofrimento. Além da ausência de cuidados com a higiene, a madrasta a privou de alimentos, o pai a obrigou a trabalhar na coleta de reciclagem, a retirou da escola e ainda tentou devolvê-la ao Conselho Tutelar de Luziânia. “O pai disse que a menina dava trabalho por isso queria devolvê-la”, conta o conselheiro Joelson Carvalho, que atendeu o caso.
Àquela altura, louco para se desvencilhar da filha adotiva, Paulo já tinha peregrinado com a menina por Jaguaquara e Jequié, a 52 quilômetros, em busca de Maria. Sem notícias da mãe biológica, voltou para o Jardim Marília, na periferia de Luziânia, e continuou maltratando Letícia até a entrada em ação da rede
de proteção local. “Ela chegou a fugir de casa. Pediu uma amiga para escrever uma carta dizendo que não aguentava mais ser maltratada”, lembra o conselheiro Joelson.

Desnutrição e vermes

Somente quase dois anos depois de ficar sem a mãe adotiva que a amava, Letícia foi acolhida na Casa de Passagem Proteger é Possível. A decisão foi tomada pela Rede de Proteção à Infância e Juventude de Luziânia depois de tentar localizar, sem sucesso, em Jaguaquara, a mãe biológica da menina. “No momento do acolhimento ela tinha higiene precária, estava desnutrida, com vermes e piolhos, dentes estragados e sem matrícula escolar”, detalha a coordenadora da instituição, Suzane Vieira de Freitas. Aos poucos, a equipe cuidou da autoestima de Letícia, trabalhando os traumas e o medo fazendo com que ela se voltasse para os estudos, uma de suas paixões. “Lembro do dia em que fui à Casa de Passagem para conversar com Letícia. Ela me disse que não adiantava procurar a mãe biológica porque ela não a queria. O pai adotivo tinha dito isso a ela”, lembra a assistente social Rosana Araújo Toledo. Em 2016, foram várias as tentativas para localizar Maria ou qualquer membro de sua família. “Expedimos cartas precatórias para localização da genitora e para realização de estudos psicossociais”, afirma a magistrada Célia Regina Lara. Sem sucesso, ela pediu apoio ao desembargador Emílio Salomão Pinto Resedá, coordenador da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça da Bahia, uma autoridade no tema. É de sua autoria o livro Da Criança e do Adolescente (Editora Baraúna).
“Minha participação nesse caso foi mínima”, subestima o desembargador ao POPULAR. “Me predispus a ajudar minha colega Célia Regina cumprindo o efeito da prioridade absoluta. O juiz tem que esgotar todas as possibilidades antes de decidir”. O ano de 2017 começou com a descoberta de Maria em Jequié e a comprovação de que uma reaproximação era possível. Em março, acompanhada de uma das filhas, ela chegou a Luziânia para reencontrar Letícia, então com 12 anos. Por cerca de dez dias, uma equipe multiprofissional formada por assistentes sociais, psicólogos e pedagogo acompanhou a convivência de mãe e filhas.
“O que aconteceu durante a audiência foi lindo. Letícia se reconheceu fisicamente na mãe e na irmã. Foi possível identificar que os laços afetivos entre a adolescente e a família biológica tinham sido restabelecidos e fortificados”, recorda a juíza. Entre lágrimas e muitos sorrisos, Maria demonstrou interesse em ter a filha de volta. E Letícia era só alegria. Naquele dia a guarda da menina foi concedida à mãe biológica e elas voltaram juntas para Jequié.
A titular da Vara da Infância e Juventude de Luziânia explica que a mobilização das redes de proteção do município goiano e da baiana Jequié ocorreu porque Letícia foi dada para adoção por insuficiência de município goiano e da baiana Jequié ocorreu porque Letícia foi dada para adoção por insuficiência de recursos financeiros e não por maus tratos. “Na época a mãe não tinha condições, mas hoje é diferente. Ela demonstrou que poderia dar afeto e estudos à filha”.

N.R.: *Os nomes foram trocados para preservar a identidade da criança e de seus familiares.

Fonte: Jornal O Popular


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